Mais dois filmes musicais em Scopitone, o primeiro a versão de Quando Quando Quando das Kessler Sisters ou Kessler Twins. Alice e Helen Kessler tiveram formação de ballet clássico na Ópera de Leipzig e, quando tinham 18 anos, os pais aproveitaram um visto para ficar na Alemanha Ocidental. Actuaram no Palladium em Düsseldorf e no Lido em Paris. Representaram a Alemanha no Festival Eurovisão da Canção em 1959 com Heute abend wollen wir tanzen geh'n. Viveram em Itália até 1986 e depois em Munique.
Neste filme Scopitone, as Kessler Sisters cantam e dançam e poderiam ter inspirado (ou não?) as irmãs gémeas das Demoiselles de Rochefort de Jacques Demy, interpretadas por Catherine Deneuve e Françoise Dorléac, gémeas também na vida real.
Muitos dos filmes Scopitone da década de 1960 utilizam a figura feminina sobretudo como mulher-objecto. Um exemplo flagrante é certamente o Scopitone seguinte de January Jones (não a actriz da actual e fabulosa série televisiva Mad Men...), a interpretar um standard de 1932 da dupla Harold Arlen/Ted Koehler, I've got the world on a string, acabando a cantora por assumir muito claramente esse papel de mulher-objecto.
Coexistindo na época com a utilização da imagem feminina como mulher-objecto, há um questionamento e crítica dos papéis tradicionais dos géneros, um repensar do masculino / feminino e sua interrelação. Exemplo disso é o Scopitone seguinte, Comic strip, composição de Serge Gainsbourg e interpretado por ele em duo com Brigitte Bardot. Ela mesma já um sex symbol à época, interpreta aqui uma heroína que literalmente irrompe de uma página da banda desenhada Barbarella, criada em 1962 por Jean-Claude Forrest, e que viria a inspirar o filme de culto de Roger Vadim com Jane Fonda, Barbarella (1968). Estas heroínas situam-se no intervalo entre sex symbol e ícone feminista, contradição retomada por Lara Croft e pela sua intérprete no cinema, Angelina Jolie.
Como é que a canção de Gainsbourg consegue este questionamento do papel tradicional da mulher apenas como objecto erótico? Serge Gainsbourg foi o equivalente francês de Cole Porter, autor de letras sofisticadas na sua aparente simplicidade, transformando palavras triviais e elementos da cultura popular em textos de grande ironia e inteligência. Em Comic strip, o distanciamento em relação ao estereótipo consegue-se muito simplesmente através da repetição (Bardot apenas diz interjeições onomatopaicas, imitando as heroínas da banda desenhada) e do exagero quase caricatural, mostrando a figura feminina que Gainsbourg chama - "Viens petite fille dans mon comic strip" - em claro contraste, como figura poderosa e activa, tornando evidente a insuficiência e artificialismo do estereótipo, ao mesmo tempo que diverte.
Clique no link em baixo para ver o Scopitone de Comic strip com Gainsbourg/Bardot:
Não resisto a mostrar outro vídeo, este não do conjunto dos Scopitones, mas no qual Sylvie Vartan assume com graça e elegância um papel em que feminino e masculino se podem combinar sem perderem, cada um deles, a sua especificidade própria. A canção chama-se Comme un garçon e retrata uma época de emancipação feminina em França.
Outra recordação bem viva é, sem dúvida, Petula Clark, talvez mais conhecida por outros sucessos, como "Downtown", de 1964, mas que recordo especialmente pelas canções que ela com tanto charme cantava em francês com aquele sotaque inglês (aqui até pronuncia moins em vez de mois, mas tudo faz parte do tal charme...). À recordação de Petula junta-se a vívida lembrança de Serge Gainsbourg, aqui com ela ao vivo, e das suas canções, que tanto marcaram e com tal qualidade os anos 1960, em grande parte pela sofisticação das letras - quem não se recorda de "Je t'aime moi non plus", de 1968, que Serge Gainsbourg cantou em duo com Brigitte Bardot e numa segunda versão com Jane Birkin, ou "Comment te dire adieu", cantada por Françoise Hardy. Duas das suas canções de que mais gosto são "Ô Sheriff" e "La Gadoue".